Private Equity Global: O Paradoxo das Saídas Recordes e Captação Anêmica
Enquanto exits crescem 40% e GPs triplicam uso de continuation funds, a captação amarga terceiro ano de queda
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O mercado de private equity vive uma contradição reveladora: US$ 6 trilhões sob gestão, saídas aquecidas e megadeals históricos convivem com captação em queda de 24% e LPs cada vez mais exigentes.
O paradoxo que define o ciclo atual
O private equity global encerrou 2024 administrando US$ 6 trilhões em ativos — cifra que impressiona em qualquer contexto. Ao mesmo tempo, captou apenas US$ 589 bilhões no ano, retração de 24% e terceiro declínio consecutivo desde o pico de 2021. A aparente contradição esconde uma transformação estrutural: o mercado cresceu em tamanho e complexidade, mas não em ritmo de entrada de capital novo.
Enquanto a captação patina, o volume de transações subiu 14% em 2024, atingindo US$ 2 trilhões. Exits globais saltaram mais de 40% em 2025, com IPOs praticamente dobrando. O ticket médio por deal no quarto trimestre de 2024 alcançou US$ 222 milhões, acima da média histórica de cinco anos. E a cereja: o maior take-private da história, Electronic Arts por US$ 55 bilhões, foi anunciado em 2025 por um sindicato de gestores.
Como explicar que o mercado invista e desinvista mais, mas capte menos? A resposta está em três movimentos simultâneos: maturação do dry powder acumulado no ciclo anterior, sofisticação das estruturas de liquidez alternativa e seletividade extrema dos LPs. O velho modelo de levantar fundos bilionários a cada três anos, implantar capital em cinco e devolver em dez perdeu tração. O que emerge é um ecossistema mais complexo, com gestores reciclando ativos via continuation funds, LPs priorizando qualidade sobre quantidade e juros altos forçando disciplina de retorno.
A geografia da desaceleração
A América do Norte concentra US$ 3,4 trilhões dos US$ 6 trilhões globais em PE, ou 57% do mercado. Europa responde por US$ 1,1 trilhão e Ásia-Pacífico por US$ 611 bilhões. Mas a dinâmica de captação revela assimetrias brutais.
Em 2025, a América do Norte voltou a crescer: captação de fundos fechados subiu 8% para US$ 432 bilhões. Europa manteve estabilidade relativa. Ásia-Pacífico, porém, desabou 49%, captando apenas US$ 49 bilhões — menos da metade do ano anterior. A região sofre com desaceleração chinesa, tensões geopolíticas e fuga de capital internacional para mercados desenvolvidos.
O número de fundos levantados também encolheu: 952 veículos em 2024, queda de 27% ante 2023. Isso não significa menos capital total, mas concentração. Grandes plataformas globais — Blackstone, KKR, Carlyle, Apollo — dominam captação. Fundos menores ou especialistas regionais enfrentam resistência crescente de LPs, que preferem consolidar exposição em gestores com histórico comprovado e capacidade de deployment em múltiplos ciclos.
A ironia é que, mesmo com captação pressionada, o mercado nunca teve tanto dry powder disponível. Estimativas indicam mais de US$ 2,5 trilhões em capital comprometido mas não investido globalmente. Parte desse estoque vem de fundos levantados em 2020-2021, quando LPs comprometeram capital em ritmo acelerado. Agora, com deployment mais lento por conta de valuations elevados e custo de dívida maior, esse capital se acumula.
Megadeals retornam: múltiplos recordes e o custo da qualidade
O retorno dos grandes negócios em 2025 marca inflexão importante. Transações acima de US$ 2,5 bilhões voltaram ao radar, impulsionadas por necessidade de deployment, ativos de qualidade escassos e disposição de pagar prêmio por empresas com fluxo de caixa previsível.
Os múltiplos refletem essa dinâmica: buyouts em 2025 foram fechados a 11,8x EBITDA em média, novo recorde histórico. Para contextualizar, em 2019 a média ficava em 10,5x e em 2015 em 9x. O que explica gestores pagando mais caro em ambiente de juros ainda elevados?
Primeiro, escassez de ativos premium. Empresas com margens robustas, baixo risco de disrupção tecnológica e capacidade de precificação resistem bem a ciclos econômicos adversos. Segundo, pressure de LPs por deployment: fundos com dry powder elevado precisam colocar capital para trabalhar ou enfrentar questões de retorno sobre compromisso. Terceiro, acesso a dívida melhorou em 2024-2025, com spreads de leveraged loans e high yield recuando após pico de 2023.
O deal da Electronic Arts exemplifica a guinada. Um sindicato de GPs estruturou financiamento de US$ 55 bilhões para tirar a companhia de bolsa, apostando em fluxo de caixa recorrente de franquias como FIFA e capacidade de corte de custos fora do escrutínio trimestral do mercado público. É o tipo de tese que funciona em ambiente de múltiplos altos: você paga caro, mas aposta em eficiência operacional e reposicionamento estratégico longe dos holofotes.
O boom silencioso dos continuation funds
Se há um movimento que define o ciclo atual, é a explosão de estruturas GP-led. Continuation funds captaram US$ 36 bilhões em 2024, próximo do recorde de 2021. Globalmente, transações GP-led triplicaram em cinco anos: de US$ 35 bilhões em 2020 para US$ 115 bilhões em 2025.
O conceito é direto: em vez de vender um ativo no fim do prazo do fundo, o GP cria um novo veículo (continuation fund) e transfere o ativo para lá. LPs do fundo original podem optar por liquidez imediata ou rolar exposição para o novo veículo. Novos LPs entram pagando um prêmio.
Por que isso importa? Porque muda radicalmente a dinâmica de liquidez. Historicamente, saídas eram binárias: venda estratégica, IPO, secondary ou zero. Agora, GPs têm ferramenta para estender holding period de ativos vencedores sem forçar venda em momento inoportuno.
A estatística mais reveladora: 14% de todos os exits sponsor-backed hoje passam por continuation vehicles. LPs projetam que esse número suba para 20% dos deals que chegam ao fim de prazo e 29% em cinco anos. Ou seja, quase um terço das saídas futuras não será saída tradicional, mas reciclagem interna.
Isso levanta questões incômodas. Continuation funds beneficiam quem? GPs estendem fees e carried interest. LPs que rollam evitam cristalizar ganho e perdem optionalidade de realocar capital. Novos LPs pagam valuation mais alto. A indústria argumenta que é solução win-win: LPs que querem liquidez saem, os que querem exposição continuada ficam, e o ativo continua sob gestão especializada.
A realidade é mais nuançada. Há casos em que continuation funds evitam fire sale de ativos de qualidade em janelas ruins de mercado. Há casos em que servem para mascarar performance medíocre, adiando o day of reckoning. A fronteira entre uso legítimo e abuso de estrutura é tênue.
Saídas tradicionais: IPOs voltam, mas seletivamente
Enquanto GP-led rouba holofotes, exits convencionais também aqueceram. IPOs de portfolio companies de PE quase dobraram em 2025, refletindo reabertura de janelas em NYSE, Nasdaq e mercados europeus. Mas há catch: apenas empresas com perfil institucional premium conseguem precificar ofertas.
O mercado de IPO não voltou para todos. Saíram empresas de tecnologia com receita recorrente, saúde com margens defensivas e consumo com marcas estabelecidas. Startups queimando caixa ou empresas industriais com capex intensivo continuam fora do radar.
Vendas secundárias (sponsor-to-sponsor) seguem relevantes, respondendo por fatia significativa de exits. Aqui também há seletividade: apenas ativos com tese de criação de valor clara para o próximo dono encontram comprador. O tempo de simples financial engineering — comprar, alavancar, revender — acabou. Compradores querem ver roadmap de crescimento orgânico, expansão de margem ou consolidação setorial.
Trade sales para estratégicos permanecem sólidas, especialmente em setores onde corporações têm balanços fortes e apetite por M&A. Tecnologia, saúde e serviços financeiros lideram.
Brasil: liquidez restrita e estruturas em evolução
O mercado brasileiro de PE opera sob restrições estruturais que amplificam ciclos globais. Com Selic elevada em boa parte de 2022-2024, custo de oportunidade de alocar em renda variável ou participações privadas subiu drasticamente. LPs locais — fundos de pensão, family offices, seguradoras — reduziram apetite.
Fundos de Investimento em Participações (FIP), principal veículo local regulado pela CVM, enfrentam desafios de liquidez secundária. Não há mercado organizado para cotas de FIP como existe para fundos imobiliários. Saídas dependem de exits dos ativos subjacentes ou negociação bilateral de cotas.
Estruturalmente, o Brasil carece de escala para continuation funds nos moldes globais. O mercado é menor, ativos são menos líquidos, e o apetite de LPs estrangeiros para entrar em veículos de continuação locais é limitado.
Ainda assim, há movimento. GPs brasileiros exploram estruturas alternativas: vendas parciais com reinvestimento do comprador original, processos de M&A faseados e até listagens na B3 de subsidiárias de portfolio companies. A criatividade compensa parcialmente a falta de infraestrutura de mercado secundário.
O que LPs realmente querem agora
O aperto na captação reflete mudança de postura dos LPs. Após ciclo de 2020-2021 com comprometimentos acelerados e deployment abaixo do esperado, LPs adotaram postura wait-and-see.
Três exigências dominam: retornos líquidos acima de 15% ao ano (net IRR), track record verificável em ciclos completos e transparência sobre uso de estruturas alternativas de liquidez. LPs não aceitam mais promessas genéricas de alpha. Querem dados granulares de performance por vintage, setor e geografia.
Pela primeira vez desde 2015, em 2024 as distribuições aos LPs superaram chamadas de capital. Isso alivia pressure de liquidez e melhora capacidade de recommit em novos fundos. Mas LPs não estão alocando indiscriminadamente: concentram em gestores top-quartile e reduzem exposição a fundos medianos.
A implicação para GPs é clara: levantar fundo médio ou grande virou tarefa hercúlea. Apenas plataformas com bilhões sob gestão, diversificação geográfica e setorial e capacidade de oferecer produtos diferenciados conseguem captar em escala.
Implicações para alocadores e o novo normal
O ciclo atual de PE não é anomalia temporária, mas new normal. Captação permanecerá seletiva, exits dependerão crescentemente de estruturas sofisticadas e retornos exigirão disciplina operacional, não apenas financial engineering.
Para investidores institucionais, três estratégias emergem como prioritárias: concentrar alocação em gestores comprovados com acesso a deal flow premium, entender profundamente estruturas de continuation e GP-led para avaliar quando fazem sentido e aumentar exposição a mercados secundários como fonte adicional de liquidez.
Para GPs, a mensagem é dura: tamanho não garante captação, e exits não são mais automáticos. Quem não dominar criação de valor operacional, engenharia de saída criativa e gestão ativa de portfolio ficará para trás.
O mercado de US$ 6 trilhões segue robusto. Mas o modelo de crescimento mudou. A era de levantar fundos bilionários com pitch deck de 20 slides acabou. O que vem é competição darwiniana por capital, ativos e LPs sofisticados. Sobreviverão os que entenderem que PE não é mais apenas sobre comprar barato e vender caro — é sobre construir empresas melhores em ciclos cada vez mais longos e complexos.
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Fontes
- S&P Global Market Intelligence
- McKinsey Global Private Markets Review
- Preqin
- CVM
Conteúdo produzido com assistência de inteligência artificial e validado pela equipe editorial Rockenbury Análises.
