Private Equity: A Travessia Entre o Ciclo de Escassez e a Retomada
Captação encolhe 70% desde 2021, mas saídas recordes em 2025 sinalizam virada estrutural
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O mercado global de private equity atravessa sua fase mais desafiadora desde a crise financeira de 2008. Três anos consecutivos de quedas superiores a 20% na captação de recursos expõem não apenas um ajuste cíclico, mas uma transformação profunda nas dinâmicas entre gestores e investidores institucionais.
O Paradoxo da Liquidez Congelada
Enquanto os índices acionários globais renovavam máximas históricas em 2024 e início de 2025, o universo do private equity enfrentava uma paralisia financeira raramente vista. A captação global despencou de US$ 1,2 trilhão em 2021 para US$ 584 bilhões em 2024 — uma contração de 51% em três anos. Em 2025, nova queda de 22% consolidou o período mais árido da indústria em mais de uma década.
A explicação superficial aponta para juros altos e volatilidade macroeconômica. Mas a raiz do problema está em outro lugar: o denominador effect. Com portfólios públicos valorizando-se rapidamente e ativos privados mantendo avaliações estagnadas ou em queda, os Limited Partners (LPs) — fundos de pensão, endowments, family offices — viram suas alocações em private equity ultrapassarem os limites estabelecidos em suas políticas de investimento. A solução? Congelar novos compromissos até que distribuições reequilibrem os portfólios.
Essa dinâmica criou um círculo vicioso. Sem saídas robustas, não há dinheiro retornando aos LPs. Sem distribuições, não há espaço para novos fundos. E sem novos fundos, gestores enfrentam pressão crescente para realizar ativos — mesmo em condições subótimas.
A Concentração Inescapável
O aperto na captação acelerou um movimento que já estava em curso: a concentração de capital em gestores estabelecidos. Em 2024, apenas 33% dos fundos conseguiram fechar captações em até 18 meses — ainda melhor que os 25% de 2023, mas distante dos padrões pré-pandemia. Fundos estreantes ou menores enfrentam ciclos de fundraising que se estendem por anos, quando conseguem fechar.
A preferência por gestores com histórico comprovado não é mero conservadorismo. Ela reflete uma mudança estrutural na relação LP-GP (General Partner). Com múltiplos de saída comprimidos e taxas de juros que elevam o custo de oportunidade do capital, LPs demandam não apenas retornos superiores, mas também previsibilidade operacional e alinhamento de interesses mais rigoroso.
Essa seletividade se manifesta nos números: fundos secundários, que permitem aos LPs vender posições em fundos existentes, captaram US$ 56,3 bilhões no quarto trimestre de 2024 — queda de 39% em relação ao trimestre anterior. O mercado secundário, antes válvula de escape para liquidez, tornou-se também campo de batalha por pricing.
Na Europa, a distorção é ainda mais evidente. Enquanto a captação total subiu modestamente 4% em 2025 para US$ 338 bilhões, os fundos de buyout — coração do modelo tradicional de private equity — desabaram 40%, para US$ 90 bilhões. Isso representa uma migração de capital para estratégias de crédito privado, infraestrutura e venture growth, áreas percebidas como menos dependentes de alavancagem e múltiplos de saída elevados.
Continuation Funds: Jogo de Soma Zero ou Inovação Necessária?
A ascensão dos continuation funds — veículos que permitem a GPs transferir ativos de um fundo para outro, oferecendo liquidez parcial aos LPs originais — ilustra a criatividade (ou desespero) do setor. Esses fundos captaram US$ 36 bilhões em 2024, volume próximo ao recorde de 2021.
Seus defensores argumentam que continuation funds solucionam problemas de timing: ativos de qualidade que precisam de mais tempo para amadurecer não são forçados a saídas precipitadas. Críticos veem um mecanismo de perpetuação de taxas de gestão, onde GPs estendem indefinidamente a vida de investimentos medianos, adiando o dia do acerto de contas.
A verdade provavelmente está no meio. Em um ambiente onde o período médio de detenção de ativos em buyouts subiu de 5-6 anos pré-2021 para 7 anos em 2025, continuation funds funcionam como ponte entre expectativas de LPs (que querem liquidez) e realidades operacionais (empresas que precisam de mais runway para entregar valor).
Mas há um limite. Se a indústria normalizar períodos de detenção de 8, 9, 10 anos, a promessa central do private equity — gerar valor por meio de transformação operacional em janelas definidas — começará a se dissolver. O risco é transformar fundos em holdings perpétuos, indistinguíveis de portfólios de longo prazo sem a governança correspondente.
O Brasil na Contracorrente
Enquanto o mundo desenvolvido digeria a ressaca dos anos de dinheiro farto, o Brasil apresentou dinâmica inversa. Investimentos de private equity atingiram R$ 15,9 bilhões em 51 transações até o terceiro trimestre de 2025, superando os R$ 13,3 bilhões em 72 deals de todo o ano de 2024.
Esse desempenho não decorre de euforia doméstica — a Selic acima de 13% ao ano torna o custo de capital proibitivo para muitas estratégias. A explicação está na demanda externa: gestores internacionais, especialmente norte-americanos, intensificaram buscas por exposição a mercados emergentes após saturação de valuations nos EUA.
Setores como agronegócio, tecnologia financeira e infraestrutura concentraram o interesse. Diferentemente dos ciclos anteriores, onde capital estrangeiro buscava participações minoritárias, o momento atual privilegia aquisições de controle em empresas com EBITDA de R$ 50 milhões a R$ 300 milhões — faixa onde há escala suficiente para diluir riscos, mas ainda amplo potencial de profissionalização.
O lado negativo: saídas continuam tímidas. A ausência de um mercado de capitais profundo e líquido limita IPOs a janelas estreitas. Vendas estratégicas a corporações dominam, mas pagam múltiplos conservadores. Essa assimetria — entrada robusta, saída lenta — acumula pressão para os próximos 24-36 meses, quando os fundos de 2021-2022 atingirão seus períodos típicos de desinvestimento.
A Virada de 2025: Dados ou Wishful Thinking?
Os números de 2025 trazem oxigênio ao setor. Globalmente, investimentos cresceram 7% para US$ 511,6 bilhões em 2024 (base anualizada). Mais importante: saídas atingiram o segundo maior valor histórico, com US$ 900 bilhões em transações de buyout completadas ou anunciadas.
IPOs voltaram ao radar. Empresas de private equity que aguardavam anos por janelas de listagem finalmente encontraram receptividade em bolsas norte-americanas e europeias. O tamanho médio de deals subiu para US$ 222 milhões no quarto trimestre de 2024, indicando apetite por transações complexas.
Mas há vieses nesses dados. Primeiro, valores de saída incluem anúncios, não apenas fechamentos — e slippage entre assinatura e conclusão permanece elevado. Segundo, os maiores exits concentraram-se em setores de tecnologia e saúde, deixando gestores focados em industriais, consumo e real estate ainda presos a portfólios ilíquidos.
Terceiro, e mais relevante: a recuperação de saídas depende criticamente da trajetória de juros. Cortes antecipados pelo Federal Reserve para 2025 já foram precificados. Se inflação persistente forçar pausa ou reversão, múltiplos de saída voltarão a comprimir, abortando a retomada antes que ganhe tração sustentável.
As Perguntas Que Determinam a Próxima Década
Beyond dos ciclos de curto prazo, três questões estruturais moldarão o private equity:
Primeira: qual o papel da alavancagem em um mundo de juros estruturalmente mais altos? O modelo clássico de LBO (leveraged buyout) dependia de dívida barata para amplificar retornos. Com custo de capital acima de 8-10% em moedas fortes, o playbook precisa ser reescrito. Gestores que não dominarem criação de valor operacional — não apenas engenharia financeira — ficarão para trás.
Segunda: como a indústria lida com pressões regulatórias e de ESG? Legisladores na Europa e EUA intensificam escrutínio sobre taxas, conflitos de interesse e impacto social de reestruturações. LPs institucionais, especialmente públicos, exigem relatórios detalhados de pegada de carbono e práticas trabalhistas. Compliance deixou de ser acessório para se tornar fator competitivo.
Terceira: há espaço para novos entrantes ou a concentração é irreversível? Se apenas megafundos de US$ 10 bilhões+ conseguem captar de forma eficiente, a indústria perde dinamismo. Nichos regionais, setoriais ou estratégicos podem oferecer brechas — mas exigem diferenciação autêntica, não apenas pitch decks reformatados.
O Que Fazer com Essa Informação
Para LPs, o momento exige disciplina. Rebalancear portfólios vendendo posições secundárias com descontos de 10-20% pode parecer doloroso, mas libera capacidade para compromissos em fundos novos de gestores comprovados — onde termos melhoraram significativamente. Evitar FOMO em continuation funds sem análise rigorosa de conflito de interesses é crucial.
Para GPs, o imperativo é retornar capital. Aceitar saídas a múltiplos modestos hoje pode ser melhor que apostar em recuperação incerta. Demonstrate distribuições constrói credibilidade para o próximo fundo — ausência delas condena ao ostracismo.
Para empresas considerando vender para private equity, o poder de negociação mudou. Gestores precisam desesperadamente colocar dry powder (capital captado não investido) para trabalhar — US$ 2,6 trilhões globalmente aguardam alocação. Estruturas criativas, earnouts, reinvestimento de sellers podem equilibrar expectativas de preço sem inviabilizar transações.
O private equity não vai desaparecer. Mas sua próxima encarnação será forjada na escassez, não na abundância — e apenas quem compreender essa transição navegará com sucesso os próximos cinco anos.
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Fontes
- McKinsey Global Private Markets Report 2026
- Preqin Global Private Equity Report
- Bain Global Private Equity Report 2026
- Abvcap (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital)
- EY Global Private Equity Pulse
Conteúdo produzido com assistência de inteligência artificial e validado pela equipe editorial Rockenbury Análises.
