O Paradoxo da Liquidez: Private Equity Entre a Abundância de Capital e a Escassez de Saídas
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    O Paradoxo da Liquidez: Private Equity Entre a Abundância de Capital e a Escassez de Saídas

    Enquanto fundos globais reativam investimentos com US$ 2,1 trilhões em 2025, o Brasil enfrenta um ciclo descompassado de exits travados

    Equipe Rockenbury·6 de junho de 2026·9 min de leitura

    Pontos-chave

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    O mercado global de private equity movimentou US$ 2,1 trilhões em investimentos durante 2025, o maior volume em quatro anos. Mas essa aparente abundância esconde uma questão estrutural: fundos captaram capital que ainda não conseguiram devolver aos investidores na velocidade esperada.

    A Assimetria Entre Captação e Distribuição

    O dry powder de fundos de private equity sediados nos Estados Unidos caiu de US$ 1,3 trilhão em dezembro de 2024 para US$ 880 bilhões em setembro de 2025. À primeira vista, uma redução de 32% sugere eficiência operacional e retomada de ritmo nos investimentos. A realidade, contudo, é mais nuançada: essa queda reflete não apenas novos deals, mas também a pressão crescente sobre gestores para demonstrar capacidade de execução diante de investidores institucionais cada vez mais seletivos.

    Enquanto o segundo trimestre de 2025 registrou cerca de US$ 150 bilhões em captações globais de private equity — número estável em relação ao trimestre anterior —, o mercado de exits movimentou US$ 1,2 trilhão ao longo do ano, distribuído em mais de 9.000 transações. Esse volume representa recuperação em relação aos anos de 2022-2023, mas permanece abaixo dos picos de 2021, quando a combinação de taxas de juros próximas de zero e valuations elevados criou condições ideais para desinvestimentos.

    O dado mais revelador sobre o ciclo atual não está nos números absolutos, mas na mudança de composição: o volume total de deals caiu de 20.836 em 2024 para 19.093 em 2025, mesmo com o valor agregado subindo de US$ 1,8 trilhão para US$ 2,1 trilhões. Isso indica concentração em ativos maiores e de maior qualidade — uma estratégia defensiva que prioriza certeza de execução sobre oportunismo.

    O Mercado Secundário Como Sintoma, Não Solução

    A projeção de mais de US$ 100 bilhões em compromissos para fundos secundários em 2026 não é sinal de sofisticação do mercado, mas evidência de um problema estrutural de liquidez. Investidores institucionais — fundos de pensão, endowments, family offices — estão recorrendo ao mercado secundário não por estratégia de otimização de portfólio, mas por necessidade de rebalanceamento diante de compromissos de capital não distribuídos.

    Quando um Limited Partner vende sua participação em um fundo de private equity no mercado secundário, geralmente aceita deságio sobre o valor contábil (NAV). Esse desconto — que variou entre 5% e 15% para ativos de qualidade em 2024-2025, podendo chegar a 30% para veículos mais antigos — reflete não apenas prêmio de liquidez, mas também ceticismo quanto às projeções de retorno dos gestores.

    A expansão dos fundos secundários, portanto, funciona como válvula de escape para um sistema que alongou artificialmente os períodos de detenção. Fundos levantados entre 2017 e 2019 que deveriam ter iniciado distribuições substanciais em 2023-2024 ainda mantêm posições relevantes em empresas do portfólio, adiando o momento de cristalizar retornos — ou perdas.

    Brasil: O Descompasso Entre Expectativa e Execução

    Se o mercado global opera em ciclo de recuperação seletiva, o Brasil permanece em fase de ajuste prolongado. A ausência de uma janela consistente de IPOs desde 2022 forçou gestores a dependerem quase exclusivamente de M&A estratégico e secondary buyouts, canais que exigem maior alinhamento de expectativas de valuation entre vendedores e compradores.

    A estrutura de captação no Brasil, concentrada em poucos gestores de grande porte — Advent, Pátria, Vinci, Carlyle, KKR, IG4, Gávea, H.I.G. — cria um efeito cascata: sem distribuições consistentes de fundos anteriores, investidores institucionais (predominantemente estrangeiros) reduzem apetite para novos compromissos de capital. Isso explica por que o ciclo de captação se alongou mesmo em períodos em que o ambiente macroeconômico local apresentou melhora pontual.

    A Selic em patamares elevados — que oscilou entre 10,5% e 13,75% no período 2023-2025 — funciona como taxa de desconto implícita elevada para qualquer ativo ilíquido. Investidores comparam o retorno esperado de um FIP (fundo de investimento em participações) não apenas com benchmarks de equity, mas também com a taxa livre de risco local. Quando essa taxa supera 10% ao ano em termos reais, a exigência de retorno sobre private equity se desloca para faixas de 18% a 25% ao ano, comprimindo o universo de teses de investimento viáveis.

    As Estratégias de Saída Que Ninguém Quer Usar

    A teoria de private equity ensina que existem quatro rotas principais de exit: IPO, venda estratégica (trade sale), secondary buyout e recapitalização. Na prática brasileira recente, a ordem de preferência inverteu completamente.

    IPOs, que deveriam representar a validação máxima de criação de valor — precificação por mercado aberto, liquidez permanente, múltiplos de avaliação potencialmente superiores —, tornaram-se raros e arriscados. A volatilidade pós-listagem de empresas que abriram capital em 2020-2021 destruiu credibilidade do canal: investidores institucionais que participaram de ofertas primárias viram valuations derreterem 40% a 60% em 12-18 meses, criando trauma de alocação.

    Vendas estratégicas, tradicionalmente vistas como second best, tornaram-se primeira escolha por necessidade. O problema é que compradores estratégicos — grupos industriais, multinacionais setoriais — sabem dessa dinâmica e negociam com vantagem informacional. Quando todos os vendedores precisam vender e poucos compradores estão dispostos a pagar múltiplos de 2021, o equilíbrio de Nash se desloca para descontos estruturais.

    Secondary buyouts entre fundos de PE, que globalmente representam cerca de 30% dos exits, no Brasil esbarram em dois obstáculos: base limitada de compradores institucionais e expectativas desalinhadas de valuation. Um fundo que investiu em 2019 com projeção de TIR de 22% ao ano não aceita facilmente vender para outro fundo a múltiplo que implique retorno de 14% — mesmo que esse seja o retorno de mercado atual.

    Recapitalizações — quando a empresa do portfólio toma dívida para distribuir dividendos ao fundo controlador — funcionam apenas em ambiente de crédito farto e barato. Com spreads de crédito corporativo elevados e bancos seletivos, essa rota se fechou para a maioria dos ativos.

    O Que os Números Não Dizem Sobre Retorno

    Quando a indústria reporta US$ 2,1 trilhões em investimentos de PE em 2025, esse número captura apenas o numerador da equação de retorno. O denominador — capital efetivamente distribuído aos investidores em cash, não em valuation contábil — permanece opaco.

    Fundos de private equity reportam performance através de múltiplos (MOIC — Multiple on Invested Capital) e taxas internas de retorno (TIR). Mas esses cálculos são baseados em valuations trimestrais de empresas não listadas, sujeitas a metodologias que variam entre gestores e auditores. Um ativo marcado a 2,5x o capital investido em dezembro de 2024 pode ser vendido a 1,8x em junho de 2025 — e apenas nesse momento o retorno real se materializa.

    A extensão dos períodos de detenção — que passaram de uma média de 4-5 anos antes de 2020 para 6-8 anos no ciclo atual — corrói TIRs mesmo quando múltiplos absolutos permanecem atrativos. Um exit a 3,0x o capital investido gera TIR de 24,6% se realizado em 5 anos, mas apenas 18,6% se realizado em 7 anos. Essa matemática simples explica por que gestores aceitam múltiplos menores para acelerar distribuições: a alternativa de esperar por múltiplos maiores pode resultar em TIRs piores.

    Implicações Para Alocação de Capital

    Investidores considerando exposição a private equity em 2025-2026 enfrentam um paradoxo: o momento de maior pressão por liquidez sobre gestores pode criar oportunidades de entrada em valuations corrigidos, mas também expõe a fragilidades estruturais de um modelo que depende de ciclos de crédito e saídas via mercado de capitais.

    Para investidores brasileiros, três questões deveriam preceder qualquer compromisso de capital:

    Primeira: O gestor tem histórico documentado de exits realizados (cash-on-cash) ou apenas retornos marcados a mercado? A diferença entre IRR reportado e DPI (Distributed to Paid-In capital) revela capacidade real de cristalizar valor.

    Segunda: A estratégia de saída assume reabertura de janela de IPO ou está estruturada para cenário de M&A e secondary buyouts? Fundos que ainda projetam exits via mercado de capitais em larga escala estão precificando cenário que não se materializou nos últimos três anos.

    Terceira: O período de investimento do fundo se sobrepõe a ciclos de outros fundos do mesmo gestor? Gestores que levantaram capital novo antes de distribuir substancialmente fundos anteriores enfrentam conflito de alocação de oportunidades — os melhores deals vão para o veículo mais recente ou para aquele que mais precisa demonstrar performance?

    No contexto global, a concentração de capital em fundos maiores e ativos de maior qualidade sugere que o spread de retorno entre quartis superiores e inferiores de performance deve ampliar. Isso favorece gestores estabelecidos com track record de múltiplos ciclos completos (captação + investimento + distribuição), mas também cria barreira de entrada para novos gestores, reduzindo diversidade de estratégias.

    O mercado secundário, por sua vez, oferece oportunidade contrarian para investidores com horizonte flexível: comprar participações em fundos maduros com desconto sobre NAV pode gerar retornos atrativos se os exits ocorrerem próximos ao valor contábil, mas exige capacidade de análise bottom-up de cada ativo do portfólio — trabalho que poucos investidores conseguem executar com rigor.

    O Ciclo Que Não Se Completa

    A indústria de private equity global opera hoje em equilíbrio instável: capital abundante buscando retornos acima de mercado público, mas enfrentando fricções estruturais para converter investimentos em distribuições. O volume de US$ 2,1 trilhões em investimentos de 2025 representa não apenas apetite por ativos privados, mas também tentativa de resolver o problema anterior — dry powder acumulado que precisa ser implantado antes que investidores percam paciência.

    No Brasil, essas fricções se amplificam: mercado de capitais intermitente, taxa livre de risco elevada, base limitada de compradores estratégicos e institucionais. Gestores que levantaram capital em 2018-2020 enfrentam agora o teste definitivo: demonstrar que o modelo de criação de valor via gestão ativa, alavancagem e arbitragem de múltiplos funciona mesmo quando todas as saídas ideais estão temporariamente fechadas.

    Para investidores sofisticados, o momento exige distinção clara entre exposição a private equity como classe de ativo — que historicamente entregou prêmio de iliquidez — e exposição a gestores específicos capazes de executar exits em condições adversas. A diferença entre essas duas teses pode significar 800 a 1.200 basis points de retorno anualizado ao longo de uma década.

    O paradoxo da liquidez permanece: nunca houve tanto capital disponível para private equity, mas raramente foi tão difícil transformar esse capital em retornos distribuídos. Quem resolve essa equação nos próximos 24 meses não apenas sobrevive ao ciclo — redefine as expectativas de retorno para a próxima década.

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    Fontes

    • McKinsey Global Private Markets Report 2026
    • PwC Private Equity Trend Report
    • Bain Global Private Equity Report 2026
    • KPMG Private Markets Analysis
    • With Intelligence Secondary Markets Report
    • CVM - Regulação de FIPs

    Conteúdo produzido com assistência de inteligência artificial e validado pela equipe editorial Rockenbury Análises.

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