M&A no Brasil cresce 13%, mas contradições nos dados expõem fragilidade
Mercado registra expansão em volume, mas análise revela desaceleração e concentração em setores específicos
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O mercado brasileiro de fusões e aquisições registrou entre 954 e 1.087 transações até setembro de 2025, com crescimento anual de 13% segundo algumas métricas e queda de 19% em outras. A disparidade nos números revela mais do que inconsistências metodológicas: sinaliza um mercado em transição, onde volume não se traduz necessariamente em valor.
A contradição que define o momento
O mercado brasileiro de M&A vive um paradoxo estatístico que merece atenção dos investidores. Enquanto a PwC reporta 954 operações de janeiro a agosto com alta de 13% ante 2024, outras fontes apontam 1.087 transações até setembro com queda de 19% no mesmo período comparativo. A diferença não é trivial: estamos falando de 133 transações e sinais opostos de direção.
Essa divergência metodológica expõe uma característica estrutural do mercado brasileiro: a ausência de dados consolidados oficiais pela CVM, Banco Central ou B3 obriga investidores a dependerem de relatórios de consultorias privadas, cada uma com seus critérios de inclusão. O resultado é um mercado onde "crescimento" e "retração" coexistem nos mesmos títulos, dependendo da fonte consultada.
Mais relevante do que o debate estatístico, contudo, é o que os números concordam: o valor agregado das transações mostra sinais inequívocos de desaceleração, com queda de 5% no primeiro semestre e redução de 2% nas operações acima de US$ 30 milhões.
Concentração setorial como estratégia de sobrevivência
A análise setorial revela onde o capital realmente está se movimentando. Tecnologia domina com entre 320 e 453 transações, representando aproximadamente um terço do mercado total. Não é coincidência: em ambiente de juros estruturalmente mais altos que o período 2016-2021, ativos tecnológicos oferecem narrativas de crescimento que justificam múltiplos premium.
O setor financeiro apresenta a maior taxa de crescimento anual, com 110% de expansão segundo algumas métricas, atingindo entre 61 e 143 operações. Esse movimento reflete a consolidação acelerada de fintechs e a digitalização forçada de serviços financeiros tradicionais. Para investidores, significa que a fragmentação do setor financeiro brasileiro está sendo rapidamente corrigida através de M&A, não de falências.
Energia lidera em valor absoluto em alguns relatórios, com crescimento de 18% entre janeiro e novembro. O timing não surpreende: a transição energética global transformou ativos de geração renovável em moeda forte para balanços corporativos, especialmente com regimes de incentivo fiscal domésticos e pressão ESG internacional.
A fusão BRF-Marfrig como termômetro
A conclusão da fusão entre BRF e Marfrig, formando a MBRF (MBRF3), representa mais do que a criação de uma das 10 maiores empresas do país. É um estudo de caso sobre como M&A estratégico está sendo usado para resolver problemas de escala em setores maduros.
A proteína animal enfrenta margens comprimidas, volatilidade cambial e concorrência internacional crescente. A resposta via consolidação busca sinergias operacionais imediatas, não apostas em crescimento futuro. Para o investidor, isso sinaliza que megadeals em setores tradicionais estão mais focados em defender market share do que em criar novos mercados.
Capital nacional vs. internacional: uma inversão silenciosa
Dos 1.087 deals até setembro, 884 tiveram compradores brasileiros contra apenas 203 estrangeiros. Essa proporção de 4,3:1 inverte a tendência histórica de 2010-2015, quando capital internacional dominava transações de maior porte no Brasil.
A mudança reflete três fatores: primeiro, o custo de capital externo aumentou substancialmente com a normalização das taxas globais. Segundo, compradores estratégicos locais acumularam caixa suficiente durante o ciclo de commodities 2020-2022 para financiar expansões via M&A. Terceiro, private equity doméstico amadureceu, com 210 transações no período – demonstrando capacidade de execução antes concentrada em players internacionais.
Para investidores estrangeiros, isso cria uma barreira adicional: competir contra compradores estratégicos locais que não precisam precificar risco-país em suas decisões de alocação.
O que os números não mostram
O valor total de US$ 50 bilhões em 2025, com alta de 8%, mascara uma realidade incômoda: o crescimento está concentrado em poucas transações de grande porte. A redução de 2% em deals acima de US$ 30 milhões, combinada com expansão no volume total, indica proliferação de transações menores – tipicamente com menor impacto estratégico.
Essa fragmentação sugere que o mercado médio brasileiro (middle market) está mais aquecido que o topo da pirâmide. Private equity encontra oportunidades em empresas de R$ 50-300 milhões de receita que grandes estratégicos consideram pequenas demais para justificar custos de due diligence.
Implicações para 2026
A expectativa de cautela para 2026, impulsionada por eleições presidenciais, já está precificada nos dados de desaceleração trimestral: de 24% de crescimento no primeiro trimestre para 13% no acumulado até agosto. Historicamente, anos pré-eleitorais no Brasil apresentam redução de 15-25% em volume de M&A versus anos normais.
Para investidores, isso cria uma janela: ativos de qualidade em setores defensivos (utilities, infraestrutura regulada, healthcare) tendem a ser precificados com desconto em períodos pré-eleitorais, mesmo quando fundamentos permanecem sólidos.
Perspectiva acionável
O mercado brasileiro de M&A em 2025 não está "aquecido" nem "frio" – está segmentado. Tecnologia, financeiro e energia atraem capital a múltiplos elevados. Setores tradicionais consolidam via M&A defensivo. O middle market movimenta-se independentemente de manchetes macroeconômicas.
Investidores sofisticados devem ignorar médias agregadas e focar em três vetores: primeiro, identificar sub-setores onde consolidação está apenas começando (saúde suplementar, educação, logística última milha). Segundo, monitorar saídas de private equity – fundos com horizonte de 7-10 anos precisarão liquidar posições em 2026-2027, independentemente de ciclo eleitoral. Terceiro, arbitrar a diferença entre precificação de risco-país (elevada) e risco específico de ativos (em muitos casos, administrável).
O crescimento de 13% é real, mas está nas entrelinhas, não nas manchetes.
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Fontes
- PwC Brasil - Relatório M&A 2025
- KPMG Brasil - Análise de Fusões e Aquisições
- Bain & Company - Latin America M&A Report
Conteúdo produzido com assistência de inteligência artificial e validado pela equipe editorial Rockenbury Análises.
