JPMorgan aposta contra o consenso: Selic pode cair já em dezembro
Enquanto o mercado cravo 15% de juros até o fim do ano, banco americano vê espaço para alívio monetário
Pontos-chave
- •selic
- •política monetária
- •teses contrárias
O JPMorgan acaba de colocar R$ 10 bilhões em fichas sobre a mesa ao projetar corte de 0,25 ponto percentual na Selic em dezembro de 2025, levando a taxa para 14,75%. É uma aposta solitária num cassino onde todos os outros jogadores mantêm suas posições há 15 semanas consecutivas.
A tese do JPMorgan
A economista-chefe Cassiana Fernandez lidera uma das apostas mais ousadas do mercado financeiro brasileiro neste momento. Enquanto o Boletim Focus mantém sua projeção de Selic em 15% ao fim de 2025 — posição inalterada por 15 semanas —, o banco americano enxerga uma janela de oportunidade para o Banco Central iniciar um ciclo de afrouxamento monetário ainda este ano.
A aposta não se limita a dezembro. O JPMorgan projeta que a taxa básica de juros pode alcançar 10,75% ao longo de 2026, configurando um dos ciclos de corte mais agressivos dos últimos anos. É preciso entender: isso não é apenas uma divergência numérica. É uma leitura completamente distinta sobre os vetores que movem a economia brasileira.
Os pilares da visão contrária
Três fatores sustentam a tese do JPMorgan. Primeiro, o enfraquecimento global do dólar, que tem aliviado pressões cambiais sobre economias emergentes. Segundo, a queda nos preços de commodities — especialmente petróleo —, que reduz a pressão inflacionária importada. Terceiro, sinais de desaceleração da atividade econômica brasileira, mesmo diante de um mercado de trabalho operando em níveis recordes.
Os dados mais recentes corroboram parcialmente essa leitura. O IPCA acumulado em 12 meses atingiu 4,46% em novembro, próximo ao teto da meta de inflação. O setor de serviços, historicamente mais resistente a políticas contracionistas, mantém inflação em torno de 6%. Mas aqui está o ponto crucial: o IPCA-15 recente mostrou sinais positivos, levando o próprio JPMorgan a revisar suas projeções de inflação para baixo.
A inflação projetada pelo banco para 2025 caiu de níveis superiores a 7% para 4,7%, com expectativa de 3,6% em 2026. Se confirmadas, essas trajetórias criam espaço técnico para o BC agir.
O desafio das inconsistências
Mas existem contradições importantes nessa narrativa. O mercado de trabalho opera com taxa de desemprego de 5,2% — a menor da série histórica, abaixo da NAIRU (taxa de desemprego não aceleradora da inflação). O PIB continua acima do potencial, gerando hiato positivo. São condições clássicas que exigem política monetária contracionista, não o oposto.
O próprio Banco Central sinalizou na última Ata do Copom que pretende manter juros altos por "período bastante prolongado". Essa linguagem hawkish não é retórica vazia — reflete preocupações legítimas com a trajetória fiscal e a persistência inflacionária em serviços.
A questão fiscal é particularmente problemática. Apesar da melhora no resultado primário impulsionada por arrecadação elevada, não houve ajuste estrutural. A trajetória de endividamento público permanece insustentável, com custo agravado pelo juro real ex post em alta. Déficits nominais crescentes e dívida pública acelerada são ingredientes tóxicos para qualquer tese de afrouxamento monetário antecipado.
Implicações para o investidor
O mercado brasileiro vive um momento peculiar. Em 2025, testemunhamos um rali no Ibovespa sustentado principalmente por fluxo externo, com discussões sobre a bolsa atingir 200 mil pontos em 2026. Simultaneamente, o diferencial de juros tem provocado migração significativa de capital para renda fixa.
Se o JPMorgan estiver correto, investidores posicionados exclusivamente em renda fixa de curto prazo podem sofrer com a marcação a mercado quando os cortes se materializarem. Por outro lado, se o consenso prevalecer — e há razões fundamentais para isso —, a renda fixa seguirá entregando retornos reais robustos enquanto a bolsa enfrenta volatilidade.
A DataBay, em análises baseadas em dados do BC, reforça os riscos fiscais que podem manter os juros estruturalmente elevados por mais tempo. O cenário alternativo que alguns analistas discutem, com Selic abaixo de 11% ao longo de 2026, exigiria não apenas desaceleração da atividade, mas também algum milagre fiscal — improvável no atual ambiente político.
A aposta vale o risco?
Teses contrárias ao consenso merecem atenção, especialmente quando vêm de instituições respeitadas. O JPMorgan não está fazendo análise de gabinete — sua posição reflete convicções baseadas em décadas de experiência em mercados emergentes.
Mas convicção não é sinônimo de acerto. Os indicadores de atividade econômica, mercado de trabalho e inflação de serviços sugerem que o BC terá dificuldades para justificar cortes enquanto a economia opera acima do potencial. A dinâmica fiscal adiciona outra camada de complexidade, limitando severamente o espaço para manobras.
Para investidores, a mensagem é clara: diversificação segue sendo a estratégia mais prudente. Manter exposição à renda fixa para capturar os juros reais elevados faz sentido enquanto o consenso prevalecer. Simultaneamente, posições selecionadas em bolsa — especialmente em setores que se beneficiam de eventual afrouxamento monetário — podem oferecer assimetria positiva caso a tese do JPMorgan se confirme.
O mercado vive de dissenso. É na divergência entre teses bem fundamentadas que surgem as melhores oportunidades. Mas é também onde se concentram os maiores riscos. Em dezembro, saberemos quem leu melhor o jogo do Copom.
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Fontes
- Boletim Focus - Banco Central do Brasil
- Ata do Copom
- JPMorgan Research
- DataBay Análises
- Bora Investir (B3)
Conteúdo produzido com assistência de inteligência artificial e validado pela equipe editorial Rockenbury Análises.
