O Banco Mais Lucrativo do Brasil Entrega ROE de 24% — e Não É Acidente
Itaú Unibanco bate recordes trimestrais sucessivos com rentabilidade que envergonha gigantes globais
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R$ 12,4 bilhões de lucro em um único trimestre. ROE de 24,3%. Enquanto JPMorgan comemora 15% de retorno sobre patrimônio, o Itaú Unibanco opera em outra dimensão de rentabilidade — e o mercado trata isso como normal.
O Banco Mais Lucrativo do Brasil Entrega ROE de 24% — e Não É Acidente
Quando um banco entrega R$ 12,4 bilhões de lucro recorrente em três meses e mantém retorno sobre patrimônio líquido acima de 24%, duas perguntas emergem: por que essa rentabilidade é sustentável em níveis que bancos globais não conseguem replicar? E por que o mercado precifica isso como se fosse temporário?
O Itaú Unibanco encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro recorrente gerencial de R$ 12,407 bilhões, alta de 7,8% sobre o mesmo período do ano anterior e 1,0% sobre o trimestre imediatamente anterior. O ROE recorrente anualizado ficou em 24,3%, praticamente estável ante os 24,8% do 1T26 e bem acima dos 23,3% do 2T25. No acumulado do primeiro semestre, o lucro recorrente gerencial somou R$ 24,689 bilhões, avanço de 9,1% sobre o 1S25.
Esses números não representam um pico isolado. O banco vem batendo recordes sucessivos de lucro trimestral no Brasil desde meados de 2025, quando registrou R$ 11,28 bilhões no 2T25, depois R$ 11,9 bilhões no 3T25 — à época descrito pela B3 como o maior lucro trimestral já registrado por um banco brasileiro — e agora R$ 12,4 bilhões no 2T26. Em 2025, o lucro líquido anual totalizou R$ 46,8 bilhões, crescimento de 13,1% sobre 2024, com ROE médio de 23,4% no ano.
A Anomalia da Rentabilidade Brasileira
Para dimensionar a magnitude dessa performance, vale a comparação com pares internacionais. O JPMorgan Chase, maior banco dos Estados Unidos por ativos e valor de mercado, reportou ROE de aproximadamente 15% a 17% em trimestres recentes — números considerados excelentes para um banco global de grande porte. O Bank of America oscila entre 10% e 13%. O Santander, na Espanha, comemora quando ultrapassa 14%.
O Itaú opera com ROE 50% a 100% superior ao de bancos comparáveis em tamanho e sofisticação. E faz isso de forma consistente, não episódica. Desde 2023, o banco não registrou ROE trimestral abaixo de 22%. A questão deixa de ser "o Itaú teve um bom trimestre" e passa a ser "por que um banco consegue sustentar rentabilidade tão acima da curva global por tanto tempo".
Três fatores estruturais explicam essa anomalia: spread bancário elevado, estrutura oligopolizada e gestão de risco superior à média do setor brasileiro.
O Spread que Não Cai
O spread bancário no Brasil — diferença entre a taxa cobrada nos empréstimos e o custo de captação — permanece em patamares que seriam considerados abusivos em economias desenvolvidas. Enquanto bancos americanos operam com spreads de 2% a 3% em operações de crédito corporativo, bancos brasileiros extraem margens de 8% a 12% em produtos similares. No varejo, a discrepância é ainda maior.
Esse diferencial não é acidental. Resulta de uma combinação de fatores: alta taxa básica de juros (que encarece o custo de oportunidade do capital), percepção de risco elevada (que justifica prêmios maiores), baixa concorrência em segmentos rentáveis e complexidade regulatória que dificulta a entrada de novos competidores.
O Itaú domina esse jogo melhor que qualquer outro. A carteira de crédito de R$ 1,5 trilhão, reportada em junho de 2026, está concentrada em segmentos defensivos: crédito consignado (inadimplência baixa), financiamento imobiliário (garantia real), grandes empresas (relacionamento de longo prazo) e pessoa física de alta renda. A inadimplência consolidada do banco permanece controlada, abaixo da média do sistema, porque o Itaú não precisa competir pelo cliente marginal — ele define o preço e espera o cliente qualificado vir até ele.
A Fortaleza Oligopolizada
O setor bancário brasileiro é uma das estruturas oligopolizadas mais estáveis do capitalismo contemporâneo. Itaú, Bradesco, Santander Brasil e Banco do Brasil concentram cerca de 80% dos ativos, 75% do crédito e percentual similar dos depósitos. Fintechs avançaram em pagamentos e crédito pessoal de pequeno valor, mas não conseguiram penetrar nos segmentos de maior margem: crédito corporativo de médio e grande porte, gestão de fortunas, wealth management e operações estruturadas.
Essa proteção competitiva não é regulatória no sentido direto — o Banco Central não proíbe a entrada de novos players —, mas é estrutural. Bancos grandes no Brasil se beneficiam de:
Escala em captação: acesso privilegiado a depósitos à vista (funding barato), enquanto bancos menores dependem de CDBs e captações de mercado mais caras.
Rede de distribuição física e digital: agências, gerentes de relacionamento, plataformas integradas que levaram décadas para ser construídas e exigem bilhões em investimento contínuo.
Relacionamento cruzado: o cliente que tem conta-corrente no Itaú tende a fazer financiamento imobiliário, investimentos, seguros e previdência no mesmo grupo — o custo de mudança é altíssimo.
Acesso a informação: bases de dados históricas sobre comportamento de crédito que nenhum entrante consegue replicar rapidamente.
O resultado é que, diferentemente do que ocorreu em telecomunicações ou varejo, onde novos entrantes digitais conseguiram capturar market share rapidamente, no banking brasileiro a estrutura oligopolizada se auto-reforça. E o Itaú é o player dominante dentro desse oligopólio.
O Que o Mercado Não Está Precificando
Apesar da rentabilidade estratosférica e da resiliência comprovada ao longo de ciclos econômicos, o Itaú negocia a múltiplos que não refletem completamente essa qualidade. O banco é negociado a cerca de 1,8x a 2,2x preço sobre valor patrimonial (P/VP), dependendo do momento do mercado — múltiplo superior aos pares brasileiros, mas inferior ao que bancos com ROE de 20%+ sustentável receberiam em mercados desenvolvidos.
Bancos americanos com ROE de 15% negociam a 1,5x P/VP. O Itaú, com ROE de 24%, deveria teoricamente negociar a 3x ou mais, ajustando por risco-país. Esse desconto reflete três percepções do mercado:
Risco Brasil: a instabilidade macroeconômica, fiscal e política impõe um desconto estrutural a todos os ativos brasileiros, independentemente da qualidade da gestão.
Sustentabilidade do ROE: investidores internacionais questionam se é possível manter 24% de ROE indefinidamente, ou se isso reflete um ciclo econômico favorável temporário.
Governança corporativa: apesar de avanços, a estrutura de controle familiar (via Itaúsa) e a percepção de governança "à brasileira" impõem um desconto ante padrões globais.
A questão estratégica é se essas percepções estão corretas. O histórico de 15 anos sugere que o ROE elevado não é cíclico — é estrutural. A inadimplência do Itaú permaneceu controlada mesmo durante a recessão de 2015-2016, a pandemia de 2020-2021 e a alta de juros de 2021-2023. O spread bancário brasileiro não caiu significativamente em nenhum desses períodos. A estrutura oligopolizada não foi abalada.
Se o ROE de 24% é sustentável — e toda evidência histórica aponta que é —, o Itaú está subvalorizado. Um múltiplo P/VP de 2,5x a 3,0x seria mais consistente com a qualidade dos retornos. Isso implicaria valorização de 30% a 50% ante níveis atuais, antes de qualquer crescimento incremental de lucro.
As Perguntas que Investidores Deveriam Fazer
A narrativa dominante sobre bancos brasileiros é que são "value traps" — aparentemente baratos, mas presos em um país de risco elevado e crescimento medíocre. Essa narrativa ignora três pontos:
Primeiro, bancos não precisam de crescimento do PIB para gerar retornos excepcionais — precisam de spread e controle de risco. O Itaú demonstra isso trimestralmente.
Segundo, a comparação relevante não é com empresas de crescimento, mas com outros ativos de renda. Um ROE de 24% em um banco de baixa volatilidade de resultados é superior a quase qualquer alternativa de risco comparável no Brasil ou em mercados emergentes.
Terceiro, o cenário de ameaça competitiva — fintechs, open banking, tokenização — não se materializou na escala que justificaria o desconto atual. Nubank, XP e outras fintechs cresceram, mas não nos segmentos de maior margem do Itaú.
A pergunta não é "por que o ROE é tão alto", mas "o que precisaria mudar estruturalmente para que esse ROE caísse para níveis normais". As respostas possíveis são: queda abrupta e permanente da Selic para níveis de país desenvolvido (improvável no horizonte visível), quebra do oligopólio bancário por regulação agressiva (não há sinalização nesse sentido) ou deterioração massiva da qualidade de crédito (o Itaú tem 30 anos de histórico mostrando que sabe evitar isso).
Enquanto essas respostas não se materializarem, o banco continuará imprimindo lucros na casa de R$ 50 bilhões ao ano, distribuindo dividendos polpudos e entregando retornos que envergonham a maioria dos bancos globais. A questão não é se o Itaú é lucrativo — isso é fato. A questão é se o mercado está disposto a pagar o que essa lucratividade vale.
O Que Fazer Com Essa Informação
Para o investidor de longo prazo, o Itaú representa uma aposta em dois fatores: persistência da estrutura oligopolizada do setor bancário brasileiro e manutenção do spread bancário em níveis elevados. Ambos são apostas em inércia institucional — o Brasil continuar sendo o Brasil.
Essa não é uma aposta em crescimento disruptivo ou transformação tecnológica. É uma aposta em rentabilidade estrutural protegida por barreiras competitivas quase intransponíveis. Para quem acredita que o Brasil não converge para taxas de juros de país desenvolvido nos próximos 10 anos e que o setor bancário não será desintermediado por fintechs nos segmentos de alta margem, o Itaú é uma das melhores relações risco-retorno disponíveis.
Para quem acredita que fintechs vão dominar crédito corporativo, que a Selic vai cair estruturalmente para 4% ao ano ou que regulação vai forçar compressão de spreads, o banco está caro a qualquer preço.
A evidência dos últimos 15 anos favorece o primeiro grupo. Mas mercados precificam expectativas, não histórico. E enquanto a expectativa for de que "um dia" o ROE vai cair, o múltiplo permanecerá comprimido. Para investidores dispostos a apostar contra essa expectativa, há valor considerável ainda não capturado.
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Fontes
- Itaú Unibanco Holding S.A. – Relatórios Trimestrais e Semestrais
- B3 / Bora Investir – Cobertura de Mercado
- BTG Pactual Research – Análises Setoriais
- CVM – Documentos Societários (ITR/DFP)
Conteúdo produzido com assistência de inteligência artificial e validado pela equipe editorial Rockenbury Análises.
