Commodities Elevam Receitas, Mas Ciclo de Alta Chegou ao Fim
Exportadoras brasileiras surfaram recordes em 2025, porém projeções apontam queda de 7% nos preços em 2026
Pontos-chave
- •commodities
- •agronegócio
- •petróleo
O boom de commodities que impulsionou empresas brasileiras em 2025 mostra sinais claros de exaustão. Enquanto soja, petróleo e minério ainda sustentam receitas recordes, o mercado precisa se preparar para uma correção iminente.
A Festa das Commodities Está Terminando
O setor de commodities brasileiro viveu em 2025 um dos anos mais lucrativos da história recente. A soja sozinha representou 34,5% das exportações nacionais, alcançando US$ 34,5 bilhões, com a China absorvendo 80% da produção brasileira. O agronegócio bateu recordes de faturamento em exportações, enquanto o petróleo Brent superou US$ 119 por barril em março de 2026, impulsionado pelo conflito no Irã e pelo fechamento parcial do Estreito de Ormuz.
Empresarias como SLC Agrícola (SLCE3) exemplificam esse momento excepcional. A companhia reportou receita líquida de R$ 8,6 bilhões em 2025, crescimento de 23,7% na comparação anual, com produção de 3,59 milhões de toneladas — expansão de 42,3%. A Petrobras (PETR4), por sua vez, beneficiou-se diretamente da escalada do petróleo, com projeções indicando que preços sustentados acima de US$ 100 por barril manteriam rendimentos elevados.
Porém, os dados mais recentes sinalizam uma inflexão importante. As projeções para 2026 apontam queda de 7% nos preços de commodities essenciais — petróleo, minério de ferro, café e soja. A Organização Mundial do Comércio (OMC) projeta crescimento de apenas 0,5% no comércio mundial de mercadorias, reflexo da desaceleração econômica global e da moderação da demanda chinesa.
A Dependência Chinesa e Seus Riscos
A China permanece como o motor fundamental das exportações brasileiras de commodities. Em 2025, o gigante asiático comprou 56% do minério de ferro e 45% do petróleo bruto brasileiro, além dos já mencionados 80% da soja. As exportações de mercadorias cresceram 17% no quarto trimestre de 2025, impulsionadas principalmente por esse relacionamento comercial.
Contudo, essa concentração representa risco estrutural significativo. Qualquer desaceleração mais acentuada da economia chinesa — cenário cada vez mais provável diante das tensões comerciais globais e da crise imobiliária doméstica — impactará diretamente as receitas das exportadoras brasileiras. O minério de ferro, particularmente vulnerável ao ciclo de construção chinês, já demonstra sinais de fragilidade nos preços futuros.
O setor de fertilizantes ilustra outro ponto de vulnerabilidade. Empresas brasileiras suspenderam cotações devido às incertezas relacionadas ao Estreito de Ormuz, que responde por 30% dos fertilizantes globais. Embora a volatilidade geopolítica tenha elevado temporariamente os preços do petróleo e do gás, criando um "efeito cascata" que beneficiou as exportações agrícolas por especulação e encarecimento de insumos, essa dinâmica é insustentável no médio prazo.
Implicações para o Investidor Brasileiro
O cenário atual exige posicionamento cauteloso em empresas excessivamente expostas a commodities. Três pontos merecem atenção especial:
Primeiro, a inflação doméstica tende a acelerar com o repasse de preços de commodities para a economia interna, pressionando custos operacionais e reduzindo margens em setores dependentes de insumos importados. Setores de manufatura já enfrentam dificuldades adicionais com a entrada de produtos chineses a preços competitivos.
Segundo, empresas do agronegócio com forte exposição a grãos precisam demonstrar capacidade de manter rentabilidade em ambiente de preços declinantes. A supersafra de 2025 foi excepcional, mas a normalização climática e a pressão de preços em 2026 testarão a eficiência operacional. Companhias com estruturas de custo enxutas e contratos de venda bem posicionados devem performar melhor.
Terceiro, o setor de petróleo e gás oferece oportunidade tática, mas não estratégica. Preços do Brent acima de US$ 100 por barril sustentam fluxo de caixa robusto para a Petrobras, viabilizando dividendos generosos no curto prazo. Entretanto, a volatilidade geopolítica que sustenta esses níveis de preço é, por natureza, temporária. A normalização das rotas de transporte no Oriente Médio pressionará as cotações de volta para a faixa de US$ 75-85 por barril.
Posicionamento para o Novo Ciclo
A narrativa que prevaleceu em 2025 — de que commodities brasileiras manteriam trajetória ascendente indefinidamente — não se sustenta diante dos fundamentos macroeconômicos. A desaceleração do comércio global, a moderação chinesa e a normalização de choques geopolíticos apontam para ambiente menos favorável.
Investidores sofisticados devem rebalancear portfólios, reduzindo exposição a pure players de commodities e priorizando empresas com modelos de negócio diversificados, capacidade de repasse de custos e presença em mercados menos dependentes de ciclos de preços internacionais. O agronegócio brasileiro continuará competitivo pela eficiência produtiva, mas a janela de margens excepcionais está se fechando.
O momento demanda realismo. O ciclo de commodities não acabou, mas a fase de ganhos fáceis sim. Empresas que prosperarão nos próximos anos serão aquelas capazes de gerar valor operacional, não apenas surfar ondas de preços. Para o investidor, isso significa análise mais rigorosa de fundamentos e menos confiança em ventos favoráveis de mercado.
A supersafra de 2025 foi extraordinária. A normalidade de 2026 será o verdadeiro teste.
Compartilhar
Fontes
- Cepea
- OMC
- Banco Mundial
- G1
- FGV
- Eurasia Group
Conteúdo produzido com assistência de inteligência artificial e validado pela equipe editorial Rockenbury Análises.
