Commodities elevam receitas, mas 2026 traz risco de margem para exportadoras
    mercados
    commodities
    exportações
    agronegócio
    soja
    margens

    Commodities elevam receitas, mas 2026 traz risco de margem para exportadoras

    Exportações do agro bateram US$ 169 bi em 2025, mas tensões geopolíticas e juros altos ameaçam rentabilidade

    Equipe Rockenbury·17 de março de 2026·6 min de leitura

    Pontos-chave

    • commodities
    • exportações
    • agronegócio

    As exportadoras brasileiras surfaram a onda das commodities em 2025, com o agronegócio superando US$ 169 bilhões em vendas externas. Mas o cenário de 2026 exige cautela: tensões no Estreito de Ormuz elevam custos de insumos enquanto margens já negativas na sojicultura pressionam a rentabilidade setorial.

    Receitas recordes escondem pressão nas margens

    O desempenho das exportações brasileiras em 2025 impressiona à primeira vista. O setor agrícola registrou US$ 169 bilhões em vendas externas, crescimento de 3% sobre 2024, com recordes em soja, milho, carnes e celulose. A soja sozinha respondeu por US$ 34,5 bilhões, representando 34,5% das exportações totais do país. A Amaggi movimentou 15.600 toneladas de commodities no ano, gerando US$ 5,5 bilhões em receitas.

    Mas os números agregados mascaram uma realidade operacional mais complexa. As margens na sojicultura já entraram em território negativo em 2026, pressionadas por três vetores simultâneos: juros domésticos em patamares elevados, alavancagem acumulada pelos produtores e custos de insumos em ascensão. A produtividade do trigo subiu 19% para 3.077 kg/ha em 2025, mas esse ganho técnico não compensou integralmente o aperto financeiro que caracteriza o início deste ano.

    Geopolítica redefine a equação de custos

    O conflito envolvendo o Irã e o consequente bloqueio parcial do Estreito de Ormuz introduziram volatilidade estrutural nos mercados de fertilizantes e energia. Um terço dos fertilizantes globais transita pela região, e a interrupção logística já se reflete em cotações. Petróleo, gás natural e derivados nitrogenados subiram em bloco, gerando efeito cascata sobre os custos de produção agrícola.

    Para as empresas listadas com forte exposição exportadora, esse movimento cria uma assimetria perigosa. A Suzano, que deriva 80% de suas receitas de exportações de celulose, mantém relativa proteção por operar em mercado com dinâmica própria de precificação. Já os players agrícolas enfrentam o descompasso entre preços internacionais das commodities (que sobem por especulação geopolítica) e custos domésticos (que sobem por dependência de insumos importados).

    A China, destino de 80% da soja brasileira e responsável por 32% das exportações agrícolas totais do país, manteve o ritmo de compras estável. Mas essa estabilidade volumétrica não se traduz em previsibilidade de margem quando a base de custos flutua intensamente.

    Diversificação como válvula de escape parcial

    O movimento de diversificação geográfica das exportações brasileiras ganhou tração em 2025 e segue em 2026. União Europeia, Oriente Médio e África aumentaram participação nas compras de produtos agrícolas brasileiros, reduzindo marginalmente a dependência da China. Produtos de maior valor agregado, como ovos e chocolates, registraram recordes de exportação.

    A FGV Agro destaca que o Brasil consolidou a liderança como exportador global de milho, posição que oferece alguma flexibilidade comercial diante de tensões pontuais com parceiros específicos. Mas essa diversificação ainda não atingiu escala suficiente para alterar fundamentalmente a exposição das companhias listadas aos grandes compradores asiáticos.

    O café apresenta dinâmica distinta: receita 27% superior em 2025 apesar de menor volume exportado, beneficiado pela eliminação da tarifa americana em novembro e por quebras de safra em outros produtores. As projeções para 2026 indicam safra recorde de 70-71 milhões de sacas, mas o mercado precifica risco climático residual após eventos adversos recentes no Centro-Oeste.

    Juros domésticos como limitador estrutural

    A política monetária brasileira impõe restrição concreta à rentabilidade do setor. Com Selic em patamar restritivo e perspectiva de manutenção no curto prazo, o custo de carregamento de posições e de financiamento de safra pressiona produtores e tradings. A alavancagem acumulada nos anos de expansão produtiva agora cobra seu preço em ambiente de crédito mais caro.

    As empresas listadas com operações integradas (produção, processamento e trading) enfrentam desafio de gestão de capital de giro intensificado. O descasamento temporal entre desembolsos com insumos (concentrados no plantio) e recebimentos por vendas (na colheita) amplifica o impacto dos juros sobre o resultado operacional.

    Analistas do StoneX e AgropecFuturo projetam queda ou estabilidade nas cotações de commodities ao longo de 2026, cenário que eliminaria o único colchão disponível para absorver a pressão de custos. A combinação de preços estáveis ou descendentes com custos ascendentes comprime margens em velocidade preocupante.

    Fluxos de capital sob reavaliação

    Fundos soberanos de Emirados Árabes, Catar e Arábia Saudita reduziram aportes em ativos brasileiros como resposta a retaliações iranianas no conflito regional. Embora o Brasil mantenha posição de relativa neutralidade geopolítica — fator que historicamente atrai capital em períodos de instabilidade —, a volatilidade nos fluxos introduz incerteza adicional sobre funding de projetos de expansão.

    Essa retração de investidores institucionais do Golfo ocorre simultaneamente a um momento em que empresas do setor precisariam de capital para modernização tecnológica e ganhos de eficiência operacional que compensem a compressão de margens. O timing é particularmente desafiador.

    O que observar daqui em diante

    Investidores em empresas brasileiras com exposição a commodities devem monitorar três variáveis críticas nos próximos trimestres:

    Custo efetivo de fertilizantes: A evolução da crise no Estreito de Ormuz definirá se a pressão atual é temporária ou estrutural. Contratos de fornecimento de longo prazo oferecem proteção parcial, mas renegociações em 2026 podem cristalizar patamares mais elevados.

    Gestão de alavancagem: Companhias com balanços robustos e baixa dependência de capital de terceiros navegarão melhor o ambiente de juros altos. Indicadores de cobertura de juros e prazos médios de dívida merecem atenção redobrada.

    Mix de produtos e mercados: Empresas capazes de direcionar produção para destinos com melhores condições comerciais ou de elevar participação de itens de maior valor agregado possuem vantagem competitiva tangível no cenário atual.

    O ciclo de 2025 demonstrou a capacidade do agronegócio brasileiro de gerar receitas robustas mesmo em condições climáticas adversas. Mas 2026 testará a resiliência operacional quando a pressão migra de volume para margem. Para o investidor sofisticado, o momento exige análise granular de posicionamento competitivo, estrutura de custos e flexibilidade estratégica de cada companhia — os agregados setoriais já não contam a história completa.

    Compartilhar

    Fontes

    • G1
    • Syngenta
    • Veja
    • StoneX
    • AgropecFuturo
    • FGV Agro

    Conteúdo produzido com assistência de inteligência artificial e validado pela equipe editorial Rockenbury Análises.

    Comentários

    Comentários são anônimos e públicos. A equipe Rockenbury modera conteúdo abusivo.

    Carregando comentários...

    Aviso Importante

    Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. O conteúdo não constitui recomendação de compra ou venda de ativos, nem aconselhamento financeiro, jurídico ou tributário. O Rockenbury Análises não é uma casa de análise credenciada pela CVM. Resultados passados não garantem resultados futuros. Toda decisão de investimento deve ser tomada com base na sua situação financeira individual e, preferencialmente, com orientação de um profissional habilitado.

    Sua família ou empresa merece uma estratégia de capital à altura.

    A Rockenbury atende fundadores e famílias empresárias acima de R$ 50M. Fee-only, sem conflito de produto.

    Conhecer a Rockenbury Advisory