Commodities elevam receitas, mas 2026 traz risco de margem para exportadoras
Exportações do agro bateram US$ 169 bi em 2025, mas tensões geopolíticas e juros altos ameaçam rentabilidade
Pontos-chave
- •commodities
- •exportações
- •agronegócio
As exportadoras brasileiras surfaram a onda das commodities em 2025, com o agronegócio superando US$ 169 bilhões em vendas externas. Mas o cenário de 2026 exige cautela: tensões no Estreito de Ormuz elevam custos de insumos enquanto margens já negativas na sojicultura pressionam a rentabilidade setorial.
Receitas recordes escondem pressão nas margens
O desempenho das exportações brasileiras em 2025 impressiona à primeira vista. O setor agrícola registrou US$ 169 bilhões em vendas externas, crescimento de 3% sobre 2024, com recordes em soja, milho, carnes e celulose. A soja sozinha respondeu por US$ 34,5 bilhões, representando 34,5% das exportações totais do país. A Amaggi movimentou 15.600 toneladas de commodities no ano, gerando US$ 5,5 bilhões em receitas.
Mas os números agregados mascaram uma realidade operacional mais complexa. As margens na sojicultura já entraram em território negativo em 2026, pressionadas por três vetores simultâneos: juros domésticos em patamares elevados, alavancagem acumulada pelos produtores e custos de insumos em ascensão. A produtividade do trigo subiu 19% para 3.077 kg/ha em 2025, mas esse ganho técnico não compensou integralmente o aperto financeiro que caracteriza o início deste ano.
Geopolítica redefine a equação de custos
O conflito envolvendo o Irã e o consequente bloqueio parcial do Estreito de Ormuz introduziram volatilidade estrutural nos mercados de fertilizantes e energia. Um terço dos fertilizantes globais transita pela região, e a interrupção logística já se reflete em cotações. Petróleo, gás natural e derivados nitrogenados subiram em bloco, gerando efeito cascata sobre os custos de produção agrícola.
Para as empresas listadas com forte exposição exportadora, esse movimento cria uma assimetria perigosa. A Suzano, que deriva 80% de suas receitas de exportações de celulose, mantém relativa proteção por operar em mercado com dinâmica própria de precificação. Já os players agrícolas enfrentam o descompasso entre preços internacionais das commodities (que sobem por especulação geopolítica) e custos domésticos (que sobem por dependência de insumos importados).
A China, destino de 80% da soja brasileira e responsável por 32% das exportações agrícolas totais do país, manteve o ritmo de compras estável. Mas essa estabilidade volumétrica não se traduz em previsibilidade de margem quando a base de custos flutua intensamente.
Diversificação como válvula de escape parcial
O movimento de diversificação geográfica das exportações brasileiras ganhou tração em 2025 e segue em 2026. União Europeia, Oriente Médio e África aumentaram participação nas compras de produtos agrícolas brasileiros, reduzindo marginalmente a dependência da China. Produtos de maior valor agregado, como ovos e chocolates, registraram recordes de exportação.
A FGV Agro destaca que o Brasil consolidou a liderança como exportador global de milho, posição que oferece alguma flexibilidade comercial diante de tensões pontuais com parceiros específicos. Mas essa diversificação ainda não atingiu escala suficiente para alterar fundamentalmente a exposição das companhias listadas aos grandes compradores asiáticos.
O café apresenta dinâmica distinta: receita 27% superior em 2025 apesar de menor volume exportado, beneficiado pela eliminação da tarifa americana em novembro e por quebras de safra em outros produtores. As projeções para 2026 indicam safra recorde de 70-71 milhões de sacas, mas o mercado precifica risco climático residual após eventos adversos recentes no Centro-Oeste.
Juros domésticos como limitador estrutural
A política monetária brasileira impõe restrição concreta à rentabilidade do setor. Com Selic em patamar restritivo e perspectiva de manutenção no curto prazo, o custo de carregamento de posições e de financiamento de safra pressiona produtores e tradings. A alavancagem acumulada nos anos de expansão produtiva agora cobra seu preço em ambiente de crédito mais caro.
As empresas listadas com operações integradas (produção, processamento e trading) enfrentam desafio de gestão de capital de giro intensificado. O descasamento temporal entre desembolsos com insumos (concentrados no plantio) e recebimentos por vendas (na colheita) amplifica o impacto dos juros sobre o resultado operacional.
Analistas do StoneX e AgropecFuturo projetam queda ou estabilidade nas cotações de commodities ao longo de 2026, cenário que eliminaria o único colchão disponível para absorver a pressão de custos. A combinação de preços estáveis ou descendentes com custos ascendentes comprime margens em velocidade preocupante.
Fluxos de capital sob reavaliação
Fundos soberanos de Emirados Árabes, Catar e Arábia Saudita reduziram aportes em ativos brasileiros como resposta a retaliações iranianas no conflito regional. Embora o Brasil mantenha posição de relativa neutralidade geopolítica — fator que historicamente atrai capital em períodos de instabilidade —, a volatilidade nos fluxos introduz incerteza adicional sobre funding de projetos de expansão.
Essa retração de investidores institucionais do Golfo ocorre simultaneamente a um momento em que empresas do setor precisariam de capital para modernização tecnológica e ganhos de eficiência operacional que compensem a compressão de margens. O timing é particularmente desafiador.
O que observar daqui em diante
Investidores em empresas brasileiras com exposição a commodities devem monitorar três variáveis críticas nos próximos trimestres:
Custo efetivo de fertilizantes: A evolução da crise no Estreito de Ormuz definirá se a pressão atual é temporária ou estrutural. Contratos de fornecimento de longo prazo oferecem proteção parcial, mas renegociações em 2026 podem cristalizar patamares mais elevados.
Gestão de alavancagem: Companhias com balanços robustos e baixa dependência de capital de terceiros navegarão melhor o ambiente de juros altos. Indicadores de cobertura de juros e prazos médios de dívida merecem atenção redobrada.
Mix de produtos e mercados: Empresas capazes de direcionar produção para destinos com melhores condições comerciais ou de elevar participação de itens de maior valor agregado possuem vantagem competitiva tangível no cenário atual.
O ciclo de 2025 demonstrou a capacidade do agronegócio brasileiro de gerar receitas robustas mesmo em condições climáticas adversas. Mas 2026 testará a resiliência operacional quando a pressão migra de volume para margem. Para o investidor sofisticado, o momento exige análise granular de posicionamento competitivo, estrutura de custos e flexibilidade estratégica de cada companhia — os agregados setoriais já não contam a história completa.
Compartilhar
Fontes
- G1
- Syngenta
- Veja
- StoneX
- AgropecFuturo
- FGV Agro
Conteúdo produzido com assistência de inteligência artificial e validado pela equipe editorial Rockenbury Análises.
