O Brasil voltou ao mapa global de fusões e aquisições
Com até 1.164 operações em nove meses, mercado recupera força perdida desde 2008, mas desaceleração recente expõe fragilidade estrutural
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O mercado brasileiro de M&A registrou entre 954 e 1.164 transações nos primeiros nove meses de 2025, marcando a maior atividade desde 2008 em alguns períodos. Mas a desaceleração no terceiro trimestre revela que o otimismo inicial enfrenta obstáculos persistentes.
A retomada dos negócios
O mercado brasileiro de fusões e aquisições acordou em 2025. Dados da PwC e KPMG mostram entre 954 e 1.164 operações concluídas até setembro, dependendo da metodologia de contagem. O crescimento inicial de até 15% nos primeiros cinco meses, comparado ao mesmo período de 2024, sinalizou apetite represado desde a pandemia.
Mas os números escondem nuances importantes. Enquanto a PwC reporta 954 transações até agosto (alta de 13%) e 1.087 até setembro (queda de 19% ante 2024), a KPMG contabiliza 1.164 operações no período de nove meses (queda de 2,6%). A divergência metodológica não importa tanto quanto a direção: houve aceleração no primeiro semestre, seguida de desaceleração no terceiro trimestre.
O volume trimestral da KPMG ilustra bem essa dinâmica: 330 operações no primeiro trimestre, 409 no segundo e 425 no terceiro. A progressão linear mascara a realidade de que o ritmo de crescimento perdeu força conforme o ano avançou.
Tecnologia domina, mas não sozinha
O setor de tecnologia, mídia e telecomunicações respondeu por 320 a 453 operações, cerca de 33% do total. O número não surpreende. Inteligência artificial, fintechs, healthtechs e cibersegurança concentram capital em busca de escala e diferenciação competitiva.
O setor financeiro merece atenção especial. Com 61 a 143 operações dependendo da fonte, registrou crescimento de 110% em relação a 2024. Bancos digitais, plataformas de crédito e gestoras de recursos buscam consolidação para enfrentar um ambiente regulatório mais exigente e custos de captação crescentes.
O entretenimento aparece com 58 operações (6,1% do total), enquanto o imobiliário registrou apenas 33 transações, queda de 15,38% no período. A desaceleração imobiliária reflete juros altos e crédito restrito, fatores que ainda não foram completamente neutralizados pela Selic em queda.
Capital nacional no comando
Das 1.087 operações contabilizadas pela PwC até setembro, 884 envolveram capital nacional. O Brasil segue sendo um mercado de consolidação doméstica, onde empresários locais identificam sinergias e ganhos de escala mais rapidamente que investidores estrangeiros.
Os fundos de private equity participaram de 203 a 210 transações, mantendo presença relevante mas não dominante. Compradores estratégicos responderam por 877 operações, evidenciando que a agenda de consolidação ainda é comandada por empresas operacionais, não por fundos financeiros.
Quando olhamos para a origem do capital estrangeiro, os Estados Unidos lideram com 70 operações, seguidos por França (14), Reino Unido (10) e China (5). São números modestos para um mercado de 1.164 transações, mas representam retorno gradual de interesse internacional após anos de hesitação.
O que explica a desaceleração
A perda de ritmo no terceiro trimestre tem causas identificáveis. Primeiro, a previsibilidade macroeconômica que alimentou otimismo no início do ano começou a se dissipar. A trajetória da Selic, embora descendente, não trouxe o alívio de custo de capital esperado pelos compradores.
Segundo, a agenda eleitoral de 2026 já projeta sombra sobre decisões de longo prazo. Empresários experientes sabem que grandes transações negociadas em ano eleitoral tendem a enfrentar atrasos regulatórios e maior escrutínio político.
Terceiro, investidores estrangeiros retornam com mais exigências. A governança corporativa, antes um diferencial competitivo, agora é requisito mínimo. Estruturas de capital complexas, passivos trabalhistas não provisionados e questões ambientais afastam capital internacional mais rápido do que atraem.
Comparação histórica revela fragilidade
O volume de 2025 é o maior desde 2008, mas isso diz menos sobre força e mais sobre fraqueza estrutural. O pico de 1.659 operações em 2021 ocorreu em condições excepcionais: liquidez global abundante, juros próximos de zero e otimismo pandêmico sobre transformação digital.
O nível atual está 34,5% abaixo daquele pico e apenas marginalmente acima dos 1.037 de 2021 e 1.087 de 2022 em algumas séries. Não estamos diante de expansão robusta, mas de recuperação incompleta.
A qualidade das transações também importa. Operações maiores, que movimentam bilhões e geram manchetes, continuam escassas. O mercado é dominado por transações de pequeno e médio porte, muitas delas não divulgadas publicamente.
O que esperar daqui para frente
As consultorias que fornecem esses dados — PwC e KPMG — projetam continuidade com cautela para 2026. Esperam consolidação em setores estratégicos como energia renovável, infraestrutura e tecnologia, mas reconhecem que o calendário eleitoral pode alongar negociações e reduzir apetite por risco.
Para investidores, três conclusões práticas emergem. Primeira: setores de tecnologia e serviços financeiros seguirão atraindo capital, mas múltiplos já refletem expectativas otimistas. Segunda: consolidação em setores tradicionais — varejo, logística, agronegócio — oferece oportunidades menos precificadas. Terceira: empresas com governança sólida e estrutura de capital limpa terão vantagem competitiva crescente na atração de capital estrangeiro.
O mercado brasileiro de M&A não está em trajetória de crescimento linear. Está em recuperação irregular, vulnerável a choques políticos e dependente de previsibilidade macroeconômica que ainda não se consolidou. Investidores sofisticados reconhecem a diferença entre volume de transações e geração de valor — e sabem que o segundo nem sempre acompanha o primeiro.
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Fontes
- PwC Brasil - Relatório de M&A 2025
- KPMG Brasil - Análise de Fusões e Aquisições 2025
Conteúdo produzido com assistência de inteligência artificial e validado pela equipe editorial Rockenbury Análises.

